Alexandre Herculano 223


Trata-se de uma construção datada do início do século XX  integrada num conjunto de oito edifícios com características semelhantes: 5 pisos (rés-do-chão, 3 pisos e aproveitamento das águas furtadas), 5,8m de frente e cerca de 23m de profundidade. Não existe qualquer registo oficial quanto à edificação do edifício original, no entanto, foi encontrada uma licença para “levantar pavimento”, datada de 1909 para o prédio contíguo. O nosso prédio em particular encontra-se devoluto e em muito mau estado de conservação, com a cobertura danificada a permitir a entrada constante de água das chuvas, que aceleraram o processo de deterioração das estruturas de madeira e soalho.

Sob autorização da DGPC, o edifício passou por uma 1ª fase de obras com o objectivo de reparar cobertura, caixilharias e fachadas de forma a torná-lo estanque e travar o processo de degradação não só do próprio edifício, como dos edifícios vizinhos. Assim, na fachada principal onde era possível verificar o destacamento dos azulejos, provavelmente causado pela acumulação de água entre o substrato e o revestimento, fez-se uma limpeza e as juntas foram refeitas. Já os azulejos partidos ou em falta foram substituídos por outros iguais. recorrendo  ao banco de azulejos da Câmara Municipal do Porto. Ainda nesta fachada as caixilharias, que dado o seu mau estado já não conseguiam resguardar o interior das águas das chuvas, foram substituídas por outras com igual desenho e mesmo material e foram recuperados ainda alguns elementos decorativos originais em madeira. Aproveitou-se a ocasião para se fazer uma limpeza à pedra dos aros dos vãos através de jacto de água. Na fachada tardoz desmontou-se o revestimento em chapa ondulada, que não era original da construção, e repôs-se o desenho original com as varandas e guardas em ferro.  A estrutura em madeira da cobertura foi reabilitada e os elementos inoperantes substituídos, nomeadamente telhas partidas assim como rufos e sistema de águas pluviais. A clarabóia existente foi recuperada. Apesar de terem sido substituídas algumas peças de madeira irrecuperáveis, a forma, e altura da cobertura existente não foi alterada. Em conclusão, todas as alterações efectuadas resultaram da reposição dos alçados originais.

Numa 2ª fase, após processo de Licenciamento do projecto de Arquitectura, o prédio foi sujeito a uma intervenção para adaptação para a função de habitação colectiva. Da análise do edifício foi-nos possível aferir algumas alterações introduzidas ao longo dos anos, no entanto, podemos afirmar que a composição interior da tipologia manteve-se inalterada ao longo do tempo: escada central e um compartimento orientado para a fachada principal e outro compartimento para o alçado tardoz, ambos com alcovas.

A proposta teve por base os antecedentes históricos da casa burguesa típica do Porto e a caracterização física deste edifício. Foram introduzidas alterações mínimas como duas trapeiras no alçado tardoz, que foram desenhadas de forma a permitir aumentar a altura do pé direito, assim como iluminar e ventilar os quartos propostos neste piso. As alterações propostas no interior referem-se à introdução de alguns mezaninos e à reconfiguração interior de forma a adaptar os espaços existentes às fracções a licenciar. A proposta, aproveitou ao máximo a pré-existência, reabilitando a estrutura existente em vigamentos de castanho; a escada de madeira assim como a clarabóia; os elementos de carpintaria: as portas, as portadas, os rodapés, as alcovas, entre outros elementos decorativos de interesse histórico-arquitetónico.

Esta reabilitação deve ser avaliada sobretudo em duas dimensões: externa e interna. À data em que a obra foi realizada, esta zona da cidade parecia alheada da dinâmica regeneradora que recentemente assolou a cidade do Porto. O investimento privado enquistava-se no eixo Ribeira-Flores-Aliados, ignorando tudo o que se situasse fora dessa geografia restrita. Esta intervenção sendo a primeira a realizar-se na Rua Alexandre Herculano, acabou por ter um efeito dominó, precipitando a recuperação do edificado envolvente, sobretudo dos restantes 7 prédios “gémeos”. Se olharmos para o próprio edifício, torna-se evidente que a intervenção, apesar das adaptações introduzidas, devolveu-o à sua forma original retirando-lhe a “tralha” que lhe foi crescendo ao longo das décadas. Em termos estruturais, não houve concessões: toda a estrutura original foi mantida: paredes de alvenaria, vigamentos e até tabiques (aliás, houve inclusive a necessidade de se reconstituir uma parede em tabique). As caixilharias, apesar de novas e com melhor desempenho térmico e acústico, mantiveram o desenho original, respeitando a leitura do alçado conforme o projecto original. Dado a abordagem efectuada, a obra transformou-se num pequeno laboratório de reabilitação, tendo recebido a visita de vários grupos de formandos e alunos de várias instituições universitárias.


FICHA TÉCNICA: Designação: Alexandre Herculano 223 Ι Código: P0096 Ι Ano: 2016 Ι Local: Porto Ι Arquitectura[Coordenação]: Adriana Floret Ι Arquitectura[Colaboradores]: Inês Dinis, Hugo Santos, José Carlos Melo Dias Ι Estabilidade: Jerónimo Botelho  Ι Águas:  N40W8 Lda Ι Empreiteiro: 3M2P I Fotografia: João Morgado.